As terapias de RNA que estão revolucionando o tratamento de doenças raras
- Yury Batista
- 10 de dez. de 2020
- 5 min de leitura
Alejandra Martins
BBC News Mundo

"Como resultado da medicação, ela está muito feliz", diz pai de Catalina. A menina tem atrofia muscular espinhal e só teve acesso a nova terapia, Spinraza, após recorrer à Justiça
Catalina, uma menina de sete anos que não conseguia levantar os braços, agora penteia os cabelos sozinha.
Carlos, um cirurgião que foi condenado, nas suas próprias palavras, "a uma morte lenta e dolorosa", continua a operar e dá as boas-vindas a uma nova chance de viver.
Ambos sofrem de doenças "raras", como são chamadas as que afetam menos de uma em cada 2 mil pessoas.
E em ambos os casos, até recentemente, não havia tratamento nem esperança para esses pacientes.
A mudança na vida de Catalina, Carlos e muitas outras pessoas se deve ao surgimento, nos últimos anos, das chamadas "terapias de RNA".
"Na minha opinião, estamos vivenciando uma verdadeira revolução silenciosa", diz Rubén Artero, professor de genética da Universidade de Valência, na Espanha, à BBC News Mundo, serviço em espanhol da BBC.
"Embora ao longo da história humana, tenhamos dependido de produtos naturais ou pequenas moléculas orgânicas para curar doenças, nos últimos anos estamos desenvolvendo ferramentas para usar moléculas de RNA para controlar a expressão dos genes de uma forma muito específica."
"Isso abre toda uma gama de novas possibilidades para atacar patologias antes intratáveis."
Mas esses tratamentos revolucionários têm um custo alto. E muitas famílias como Santiago, um adolescente com a mesma doença de Catalina, continuam sua luta implacável para acessar os novos medicamentos.
O que são as terapias de RNA?
Você já deve ter ouvido falar de técnicas genéticas promissoras como CRISPR/Cas, cujos criadores receberam o Prêmio Nobel de Química este ano.
Essas técnicas buscam editar ou corrigir diretamente o DNA dentro dos genes, mas as terapias de RNA funcionam de maneira diferente.
"Enquanto no DNA, estão todas as instruções genéticas da célula, os RNAs são cópias de cada uma dessas instruções", explica Artero.
A principal vantagem de atuar no nível do RNA não é tanto o que se consegue, mas sim o que se evita, acrescenta o especialista.
"Embora as técnicas baseadas em CRISPR/Cas possam cometer erros e, potencialmente, transformar genes essenciais para o organismo em que não deveríamos atuar (por exemplo, genes supressores de tumor), as técnicas que atuam no nível do RNA não causam mudanças permanentes no DNA e, portanto, são considerados mais seguras."
Diferentes funções
Existem diferentes tipos de RNA e essas moléculas podem cumprir diferentes funções.
A mais fundamental, no caso do chamado RNA mensageiro, é transportar uma cópia de instruções genéticas dos genes do núcleo da célula para outro lugar fora do núcleo, um complexo denominado ribossomo, no qual as instruções são utilizadas para fazer proteínas.
"Um RNA mensageiro é uma cópia da informação contida em um gene em uma célula, mas em um formato que permite a síntese de proteínas pelo ribossomo", diz Artero.

RNA mensageiro carrega uma cópia de instruções genéticas de genes no núcleo da célula (esfera à esquerda) para um complexo chamado ribossomo, no qual as instruções são usadas para fazer proteínas
Algumas vacinas em desenvolvimento para covid-19 usam esse princípio. Nesse caso, o RNA contém instruções para que o corpo do paciente fabrique parte de uma proteína da covid-19, despertando assim uma reação imunológica.
As terapias de RNA para doenças raras também podem ter como alvo o RNA mensageiro. Mas existem diferentes tipos de terapias com diferentes estratégias.
Algumas drogas, por exemplo, usam moléculas de RNA sintético que reconhecem e suprimem especificamente o RNA mensageiro de um gene defeituoso.
A ideia principal é que essas terapias não alterem os genes diretamente, mas a expressão desses genes.
Um exemplo de terapia de RNA é o Patisiran, medicamento do laboratório Alnylam, dos Estados Unidos, aprovado em 2018 naquele país e na Europa.
Patisiran é o primeiro medicamento eficaz para amiloidose, uma doença genética em que versões anormais de uma proteína, chamada transtirretina ou TTR, são depositadas nos tecidos, especialmente nos nervos periféricos e no coração.
"É uma doença degenerativa progressiva e letal", diz o cirurgião espanhol Carlos Heras-Palou, que é natural de Maiorca, na Espanha, mas viveu e trabalhou na Inglaterra por mais de duas décadas, à BBC News Mundo.

Carlos Heras-Palou: "O diagnóstico é devastador; é como uma sentença de morte, mas uma morte lenta e dolorosa". O cirurgião foi diagnosticado com um tipo de amiloidose, assim como sua irmã, mãe e avô
Heras-Palou foi diagnosticado em 2004 com um tipo hereditário da doença chamada amiloidose hATTR, que afeta cerca de 10 mil pessoas em todo o mundo.
"Comecei a notar que minhas mãos e pés doíam muito, perdia a sensação, sentia formigamento e dor à noite", conta.
O cirurgião, então com 39 anos e duas filhas pequenas, suspeitou imediatamente qual era a causa. Sua mãe e seu avô morreram da mesma doença.
"O diagnóstico é devastador, é como uma sentença de morte, mas uma morte lenta e dolorosa, e não sabia disso por causa dos médicos, mas porque presenciei em casa."
"Pessoas nessa situação já viram seus pais e avós terem a doença e sabem que, em alguns anos, perderão os movimentos, ficando paralisados em uma cadeira de rodas."
Impacto da terapia
Heras-Palou teve a sorte de ser incluído em um ensaio clínico com Patisiran em 2013.
"O impacto que o tratamento teve na minha vida é enorme. Se não fosse por isso, não estaria vivo."
"Ao tomar o remédio, sua visão muda completamente porque pela primeira vez você percebe que a doença pode ser tratada. Mas o mais importante é saber que seus filhos e outros membros da família, se desenvolverem a doença, terão acesso a um tratamento."
No Reino Unido, menos de 200 pacientes como Heras-Palou recebem tratamento com Patisiran em casa, que consiste em uma infusão intravenosa a cada três semanas.
O tratamento é pago pelo Serviço Nacional de Saúde (NHS, por sua sigla em inglês), custa cerca de US$ 500 mil por paciente por ano e é vitalício.
Os laboratórios que desenvolvem as novas terapias garantem que o seu desenvolvimento requer muitos anos de investimento e pesquisa e que, por se tratarem de doenças raras, o número de beneficiários é reduzido. Vários críticos contestam esses argumentos e acreditam que os medicamentos deveriam ser mais acessíveis.
O que está claro é o efeito que os tratamentos podem ter.
Heras-Palou continua operando. "O Patisiran me permitiu parar a evolução da doença e em muitos aspectos estou ainda melhor do que antes", diz
"O Patisiran me permitiu parar a evolução da doença e em muitos aspectos estou ainda melhor do que antes", diz o cirurgião.
"Chegou um momento em que eu tinha dificuldade para andar. A dor foi embora, eu tive um problema de digestão e isso passou, e eu continuo trabalhando."
A irmã mais nova do cirurgião foi diagnosticada com a mesma doença em 2013 e recebe Patisiran em Maiorca, onde vive.
"Ela tinha parado de trabalhar e desmaiava o tempo todo. Agora tem um filho pequeno, trabalha em tempo integral e vai à academia todos os dias."
"O engraçado sobre essas drogas é que são tão específicas que não têm efeitos colaterais."
O Patisiran funciona por meio de um mecanismo chamado interferência de RNA, cujos descobridores receberam o Prêmio Nobel de Medicina em 2006.
O mecanismo permite que o RNA mensageiro de um gene defeituoso seja degradado. No caso da doença de Heras-Palou, "silenciar" o gene defeituoso reduz drasticamente a produção de proteína prejudicial que é depositada nos tecidos.
Fonte: https://www.bbc.com/portuguese/geral-55160790




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